Reflexão, promoção e defesa do valor da vida humana em suas mais diversas etapas. Este é o mote para a Igreja celebrar, de 1º a 8 de outubro, a Semana Nacional da Vida, com o tema “O sentido da vida” e o versículo “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Mas como a Igreja pretende resgatar a esperança e o valor intrínseco da existência humana frente às crises existenciais da sociedade atual?
“A primeira resposta da Igreja é recordar que a vida humana possui um valor que não depende de produtividade, saúde, idade, condição econômica ou reconhecimento social, como afirma a declaração Dignitas Infinita“, explica o padre Rodolfo Chagas Pinho, presbítero da Diocese de Jacarezinho (PR), assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB e secretário executivo nacional da Pastoral Familiar.
É por este motivo, como recorda o sacerdote, que quando Jesus afirma: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), não se trata apenas de sobrevivência biológica, mas de uma vida reconciliada, amada. “Essa compreensão torna-se especialmente necessária num contexto marcado pela solidão, ansiedade, violência, fragilidade dos vínculos familiares, cultura do descarte e perda de esperança”.
Em outra exortação apostólica, a Amoris Laetitia, o saudoso Papa Francisco recorda que a família é o santuário da vida (AL, 83). Afirma ainda que é uma contradição fazer da família o lugar onde a vida é negada ou destruída. “É precisamente aí que aparece uma missão decisiva das famílias cristãs: ajudar crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos a compreenderem que ninguém é descartável e que nenhuma existência perde sua dignidade por causa da fragilidade”, pondera o sacerdote de Jacarezinho.
O atual Sucessor de Pedro, o Papa Leão XIV, aprofundou este tema na encíclica Magnifica Humanitas. Nela, a dignidade humana não é medida pelas riquezas materiais, funções sociais ou êxitos e fracassos da pessoa. “Ela precede isso tudo porque é dom de Deus. O Papa ensina que essa dignidade pertence ao ser humano simplesmente porque existe, foi desejado, criado e amado por Deus”, observa o padre.
“Portanto, resgatar o sentido da vida significa reconstruir relações, fazer com que uma pessoa em sofrimento possa ouvir, não apenas por palavras, mas por atitudes concretas, que ela foi criada à imagem e semelhança de Deus, tendo, portanto, um valor intrínseco”, prossegue o padre Rodolfo. “Por isso, diante das crises existenciais atuais, a Igreja não apresenta apenas uma doutrina sobre a vida; ela é chamada a oferecer presença, escuta, comunhão, acompanhamento, oração e cuidado”, reitera.
Mobilizações e iniciativas
De acordo com o assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB, serão realizados dois gestos concretos em caráter nacional para celebrar a Semana Nacional da Vida: no dia 1º houve o Sinal da Alegria, cujo objetivo foi anunciar publicamente a alegria e o valor da vida. O segundo gesto ocorre nesta quinta-feira, 8, quando será celebrado o Dia do Nascituro. Na data em questão, realiza-se o Sinal da Esperança, com o acendimento de velas e a Oração do Nascituro, em comunhão com a Igreja em todo o Brasil.
“A Semana da Vida não quer permanecer dentro dos templos; ela precisa alcançar a casa, a escola, os hospitais, as instituições de acolhimento, as redes sociais, as famílias enlutadas, as gestantes em situação de vulnerabilidade, as pessoas com deficiência, os enfermos, os idosos que vivem sozinhos, as pessoas em sofrimento e todos aqueles cuja dignidade corre o risco de ser esquecida”, afirma padre Rodolfo.
O intuito é ser Igreja em saída e levar a Palavra àqueles que precisam da presença de Deus. “Quem está sozinho? Onde existe uma vida fragilizada que necessita de proteção? A partir dessas perguntas, a Semana transforma-se em missão, principalmente em diálogo com a sociedade civil organizada na exigência de políticas públicas a favor da vida humana, da concepção até a morte natural”.
Gestos concretos
Trazendo a reflexão para a prática local, alguns gestos e projetos concretos podem ser adotados por cada comunidade ou paróquia no dia a dia para acolher e proteger a vida em suas etapas mais vulneráveis. “A defesa da vida precisa tornar-se uma dimensão transversal de toda a ação evangelizadora”, observa o sacerdote.
É necessário, porém, união. Nada é feito em caráter individual, mas sim de maneira coletiva. “Assim, Catequese, Pastoral Familiar, Pastoral da Criança, juventudes, Pastoral da Pessoa Idosa, ministros, movimentos, serviço aos enfermos e demais organismos precisam desenvolver juntos uma verdadeira rede comunitária de cuidado da vida; ou seja, é compromisso de todo o Conselho Pastoral da Paróquia, ou melhor, de todo batizado”, explica.
Trata-se de uma iniciativa eclesial como um todo. “Algumas iniciativas são particularmente importantes: acompanhamento de gestantes em situação de vulnerabilidade; redes de apoio material e afetivo às mães; atenção às famílias com crianças com deficiência; visitas sistemáticas aos idosos e enfermos; acompanhamento do luto; espaços de escuta para famílias em crise; aproximação de adolescentes e jovens que vivem na solidão; orientação e encaminhamento adequado para pessoas em intenso sofrimento; apoio às famílias empobrecidas; iniciativas de adoção e acolhimento; acompanhamento de pessoas hospitalizadas; formação sobre o uso saudável das tecnologias e das redes sociais; e ações concretas de solidariedade”, enfatiza o padre.
O papel do subsídio Hora da Vida
O subsídio Hora da Vida é uma das ferramentas propostas para orientar famílias e grupos de oração no aprofundamento espiritual e pastoral do tema, unindo formação, oração e ações concretas.
“O subsídio Hora da Vida não deve ser compreendido simplesmente como um livro de textos doutrinais, que se lê e fica por isso mesmo”, adverte o padre Rodolfo. Segundo ele, o material é “um instrumento de evangelização, formação, oração e mobilização pastoral”, que busca estabelecer uma ponte entre a Palavra de Deus, o Magistério da Igreja, a realidade das famílias e a ação concreta.
Além de utilizar a Leitura Orante da Palavra de Deus, conduzindo os participantes pela leitura, meditação, oração e contemplação, o subsídio apresenta propostas de “Família em missão”. Entre elas estão gestos concretos, como visitas a enfermos e idosos, com o objetivo de transformar a oração em caridade e presença junto a quem mais precisa.
Padre Rodolfo relaciona a proposta a um pedido feito pelo Papa Leão XIV, em fevereiro de 2026, durante encontro com o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. “Ele afirmou que a formação cristã não pode reduzir-se à transmissão de conteúdos; somos chamados a compartilhar aquilo que vivemos. A vida cristã é transmitida pelo amor de uma comunidade viva; por isso, queremos formar famílias que cuidam de outras famílias”, finaliza.
Fonte: Canção Nova








