Primeiro membro do Campos a ser beatificado, sacerdote que celebrou apenas uma Missa é testemunho de união com Cristo crucificado
“Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). O versículo com o qual São João Paulo II iniciou sua homilia na Missa de beatificação do padre Carlos Leisner, há exatos 30 anos, define bem o testemunho deixado pelo primeiro membro do Movimento de Schoenstatt a ser beatificado.
Nascido em 28 de fevereiro de 1915, em Rees, na Alemanha, Carlos Leisner foi a Schoenstatt pela primeira vez em 1933. No ano seguinte, iniciou seus estudos em Teologia no Seminário de Münster. Desde aquele período, o seminarista tornou-se uma liderança forte entre os jovens, despertando a atenção do regime nazista recém-instaurado no país.
O reitor geral do Instituto Secular dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt (ISSDS), padre Marcelo Adriano Cervi, explica que foi justamente a “personalidade livre” de Leisner, enraizada em Deus e vinculada a Maria, que incomodou seus perseguidores. “Essa convicção era incompatível com qualquer ideologia totalitária”, cita o sacerdote, “eles podiam controlar seus movimentos, mas não sua consciência”.
Aceitar as cruzes da vida
Após contrair tuberculose em 1939, o jovem Carlos Leisner foi enviado para o campo de concentração de Dachau. Lá, testemunhou sua capacidade de transformar o sofrimento em oferta. “A doença, a prisão e o campo de concentração não fizeram que ele se tornasse amargo ou revoltado. Pelo contrário, amadureceram nele uma espiritualidade de entrega e confiança”, sublinha padre Cervi.
“Seu testemunho mostra que a santidade da vida diária inclui aceitar as cruzes e vivê-las unido a Cristo”, prossegue o sacerdote. Tal união ao Senhor também é citada pelo padre Cervi como uma das características de Leisner, “um homem apaixonado por Deus e, ao mesmo tempo, extraordinariamente humano, alegre e próximo dos jovens”.
Foi justamente esse amor que nutriu o chamado ao sacerdócio que havia no jovem Leisner. Seu desejo de ser ordenado sacerdote concretizou-se em 17 de dezembro de 1944, no campo de concentração de Dachau. “Em um lugar criado para destruir a vida humana, Deus fez nascer um sacerdote”, pontua padre Cervi.
Carlos Leisner recebeu o sacramento da Ordem dentro de uma barraca colocada como capela. Já bastante debilitado, celebrou sua primeira — e única Missa — em 26 de dezembro. Em 4 de maio de 1945, o jovem padre foi libertado de Dachau, pois não havia mais condições de sobreviver ao campo de concentração e os nazistas ficaram com medo de que ele morresse na prisão e fosse proclamado como herói pela juventude.
Exemplo para os sacerdotes
As últimas semanas de vida de Leisner foram vividas no Hospital de Planegg, em Munique. Foi lá que ele entregou sua alma a Deus, falecendo em 12 de agosto de 1945. Apesar de todo o sofrimento, padre Cervi pontua que a vida do beato foi permeada de uma profunda cultura do encontro, da reconciliação e da paz.
Não à toa, a última frase que escreveu em seu diário foi: “Abençoai, ó Senhor, também os meus inimigos”. Segundo padre Cervi, tal atitude revela a profundidade de sua configuração com Cristo. “Carlos Leisner não deve ser lembrado apenas como uma vítima do nazismo ou como o sacerdote ordenado em Dachau. Ele deve ser recordado como um profeta da esperança, da reconciliação e da santidade cotidiana”, expressa.
Entre outros aspectos, o sacerdote destaca o testemunho deixado pelo beato aos padres, ressaltando que Carlos Leisner ensina como a fecundidade do sacerdócio nasce da união com Cristo. “Sua vida ensina que um sacerdote pode perder a saúde, a liberdade e até a própria vida, mas nunca deve perder a alegria da vocação recebida (…) O ministério não se mede pela quantidade de atividades realizadas, mas pela profundidade da entrega a Cristo”, afirma.
“Aqui na Casa paterna dos Sacerdotes Diocesanos, no Berg Moriah, em Schoenstatt, conservamos o Altar do Campo de Concentração de Dachau e também a memória da ordenação e da sua primeira Missa do Beato Leisner”, acrescenta padre Cervi. “Nesses sinais visíveis, ele continua sendo um companheiro de caminhada e seu testemunho proclama que nenhuma prisão é capaz de aprisionar um coração totalmente entregue a Cristo e à Mãe de Deus”, conclui.
Fonte: CN Notícias







