As primeiras experiências que os discípulos tiveram da presença de Jesus Ressuscitado aconteceram justamente na partilha do pão. Ao reunir-se para celebrar a Eucaristia, a comunidade cristã percebia que, movida pelo Espírito Santo, glorificava a Deus e se constituía como Corpo de Cristo. Essa certeza sustentava a fé e a esperança dos batizados e atraía pessoas de diferentes povos, línguas e culturas para seguir o Caminho revelado por Jesus.
São Paulo expressa essa realidade de forma profunda ao afirmar: “Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1Cor 12,27). A Igreja nasce dessa comunhão e encontra na Eucaristia sua fonte permanente de unidade e missão.
Foi no século XIII, mais precisamente em 1246, na Diocese de Liège, na Bélgica, que se instituiu a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. A celebração surgiu como uma forma especial dos fiéis renderem graças a Deus pelo inestimável dom da Eucaristia, na qual o próprio Jesus se oferece como alimento de Vida Eterna. Ao longo dos séculos, a festa ganhou expressão em todo o mundo cristão, tornando-se uma das mais significativas manifestações públicas da fé católica.
A Eucaristia é fonte e centro de toda a vida cristã. O Concílio Vaticano II recorda que “o nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até ele voltar, o Sacrifício da Cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição” (Sacrosanctum Concilium, 47).
As tradicionais procissões de Corpus Christi, acompanhadas pelos tapetes artisticamente confeccionados nas ruas e praças, nasceram justamente do desejo de proclamar publicamente essa fé. Ao conduzir o Santíssimo Sacramento pelas cidades, a Igreja testemunha que Cristo caminha com seu povo e continua presente na história humana.
Entretanto, a celebração de Corpus Christi não pode limitar-se a um gesto ritual ou a uma manifestação externa de devoção. Ela nos interpela sobre a forma como vivemos nossa pertença à comunidade dos discípulos de Jesus. Ao recebermos a Eucaristia, somos fortalecidos para viver a comunhão e reconhecer que fazemos parte de um único corpo, formado por muitos membros, todos igualmente dignos e necessários.
Em um tempo marcado por divisões, individualismos e relações cada vez mais fragilizadas, a Eucaristia nos recorda a importância do encontro, da proximidade e do cuidado mútuo. Cada pessoa deve ser acolhida, valorizada e reconhecida como parte desse Corpo que Cristo reúne e sustenta.
O coração humano conserva uma necessidade profunda de proximidade. Por isso, aqueles que recebem Jesus Eucarístico são chamados a tornar-se presença viva de Cristo no mundo. Isso significa visitar quem está só, servir quem sofre, estender a mão aos mais vulneráveis, promover a paz e agir com bondade nas pequenas e grandes circunstâncias da vida.
Quando fazemos isso, continuamos a procissão de Corpus Christi para além das ruas. Levamos a presença de Cristo ao encontro dos nossos irmãos e irmãs, especialmente daqueles que mais necessitam de esperança, acolhimento e solidariedade.
Celebrar Corpus Christi é, portanto, renovar a convicção de que Cristo se faz alimento para que também nós nos tornemos alimento para os outros. É reconhecer que a Eucaristia nos transforma em Igreja viva, comprometida com a construção de relações mais humanas, fraternas e reconciliadas.
Que esta solenidade nos inspire a viver com autenticidade a fé que professamos e a testemunhar, por meio de nossas ações, que o Senhor continua caminhando com seu povo. Fortalecidos pelo Pão da Vida, sejamos sinais de esperança, proximidade e amor em um mundo que tanto necessita da presença transformadora de Deus.
Fonte: Vatican News







