A oração é fundamental para a vida do cristão, porque leva à intimidade com Deus. Neste tempo da Quaresma, seu papel é ainda mais importante, pois um dos seus frutos é a conversão interior, objetivo central deste tempo litúrgico.
Juntamente com o jejum e a esmola, a oração é um dos três pilares da Quaresma, mas ela ocupa o lugar central, pois dá sentido aos dois outros pilares, explica o reitor do Santuário do Pai das Misericórdias, Padre Ricardo Rodolfo Silva. “O jejum sem a oração têm um caráter mais de dieta, e esse não é o seu objetivo, pois sua finalidade é refrear em nós as paixões. E a esmola sem oração também vira um mero assistencialismo, uma filantropia”, esclarece.
O sacerdote destaca que a oração coloca o fiel em contato direto com Deus. “É o espaço onde Deus se revela, mostra a nós quem Ele é e toca o coração endurecido, que leva a essa intimidade com Deus e a contrição de coração”, afirma.
A oração leva à missão
Em seu Pontificado, Papa Francisco dedicou um ciclo de catequeses a este tema, e em uma delas afirmou que “a Igreja nasce na oração, e tudo cresce graças à oração”. Padre Ricardo lembra que essa verdade é bíblica, e recorda a passagem de Atos dos Apóstolos 1 e 2, que narra os apóstolos quando estavam reunidos em oração e o Espírito Santo desceu sobre eles.
“O Papa Francisco quis salientar que a oração leva à missão, ou seja, a missão nasce da intimidade com Deus. (…) Então, que possamos ter essa compreensão de que a oração é o meio mais eficaz para ‘abastecermos’ o nosso coração, a nossa vida com Deus e para ter eficácia na nossa missão”, afirmou Padre Ricardo.
Ele explicou ainda que rezar não é apenas “falar com Deus”, mas é “deixar-se transformar por Ele”. “Quem reza aprende a amar, aprende a confiar, aprende a esperar. Santo Afonso Maria de Ligório diz: ‘Quem reza se salva; quem não reza se condena’”, destaca.
O perigo de deixar de rezar
O sacerdote destaca o risco que todo cristão vive ao empenhar-se no trabalho para Deus, mas deixar de rezar. “Esse é o grande perigo espiritual”, alerta.
Ele dá como exemplo três tipos de riscos. O primeiro é o ativismo espiritual. “Fazer muito, mas sem Deus. Nós fazemos as coisas de Deus, mas estas não estão imbuídas d’Ele. Trabalhar para Deus, mas não ter o coração preenchido por Ele”.
Outro risco é o esgotamento espiritual. “A alma vai definhando, ou seja, vai ficando seca, porque a oração é o pulmão da nossa alma. Então, se nós trabalhamos, mas não rezamos, podemos atrofiar a nossa alma, e isso é um grande perigo”.
Outra realidade é o orgulho espiritual. “Ou seja, confiar nas próprias forças e não procurar uma direção que venha de Deus. A missão deixa de ser um encontro com Deus e vira uma obrigação. E quando isso acontece, nós perdemos o sentido. É o risco que vemos no Evangelho de Lucas (capítulo 10), onde Marta se agita, mas não se coloca aos pés do Senhor. Trabalha para o Senhor, mas não está com Ele”.
Padre Ricardo destaca que é preciso atenção a esses riscos, e afirma que a Quaresma quer ensinar que sem a oração não há conversão verdadeira, e perde-se o mais importante, que é a intimidade com Deus. “Pela oração, nosso coração se transforma, a nossa fé amadurece e a nossa vida inteira será um encontro contínuo com Deus”, afirma.
Orações propícias para a Quaresma
Há diversos tipos de oração, mas alguns ganham mais relevância no tempo quaresmal. O sacerdote destaca a oração da súplica, de intercessão, da escuta e do louvor, todas sustentadas por um coração humilde.
“A oração de súplica está ligada ao arrependimento e à conversão. Então, ela é muito própria para esse tempo. Ela nos leva a expressar o reconhecimento dos nossos pecados e o desejo que nós temos de mudança. Vemos isso no Salmo 51(50), onde o salmista diz ‘criai em mim um coração puro’”, indica.
Padre Rodolfo explica que a Quaresma também é um tempo de abrir-se ao outro, por isso a oração de intercessão é muito propícia. “Interceder pelos pecadores, por aqueles que sofrem, pela Igreja, pelo Papa, pelas congregações, pelos institutos religiosos, pelas novas comunidades. É um momento de interceder”.
Outro tipo de oração é a da escuta, que é a meditação da Palavra de Deus. “Ela é fundamental porque Deus nos fala e nós O ouvimos. E isso causa em nós mudança de vida. A Lectio Divina é recomendada não só para os padres, mas para toda a Igreja. É o momento de vivermos um caminho privilegiado de encontro com Deus”, ressalta.
E, por fim, a oração de louvor e ação de graças. Padre Ricardo explica que esse tipo de oração pode ser feita com sobriedade, mesmo em tom penitencial, mas é preciso agradecer a Deus por todos os feitos que Ele realiza em nossa vida. “A cruz já contém a vitória, então é o momento de também louvarmos e render graças por Jesus Cristo ter morrido por nós na cruz”.
Fonte: Canção Nova







