
São Martinho de Dume ou Bracarense, nasceu, como São Martinho de Tours, na Panónia, atual Hungria. Foi um grande caminhante. Visitou a Terra Santa e relacionou-se com os ermitães do Oriente. Depois foi a Roma, e em França, a Aries e Tours.
Em Tours encontra-se com os emissários do rei dos Suevos que governava no noroeste de Espanha. Falam-lhe dos seus povos que passaram do paganismo à fé cristã. Martinho certifica-se de que o que ali impera é o arianismo. As suas ânsias de peregrino e o seu zelo apostólico reacendem-se e o seu coração já lhe faz antever um campo preparado para a sua ação missionária.
Pouco depois, Martinho desembarcava na Galiza pela foz do rio Mínho. Instalou-se em Braga, corte dos reis suevos. Cedo teve discípulos desejosos de imitar a sua vida de solidão e penitência. Organizou-os, instruiu-os nas línguas clássicas, e em teologia. Assim nasceu a abadia de São Martinho de Dume, centro de influência religiosa e fonte de cultura.
Nomeado Bispo de Braga e metropolita da Galiza, desenvolveu uma intensa atividade. Reúne concílios, como o Lucense e o Bracarense, purifica a doutrina dos ermos arianos, promove a boa formação do clero para renovar a vida do povo.
Era tal a sua fama que Gregório de Tours, seu contemporâneo, se sente incapaz de contar as suas virtudes e maravilhas. O Concílio X de Toledo chama-o Santo. São Gregório Magno elogia-o.
E onde não chega a sua palavra, chega a sua pena. Para os monges escreve Sentenças dos Padres do deserto. Ao rei dedica-lhe Fórmula da vida honesta. Para os bispos e sacerdotes, Trata¬dos morais e Cartas. Para os povos, ainda influenciados pelos erros de Ano e de Prisciliano, escreve Correção dos rústicos, verdadeira síntese de dogma e de moral.
Para os aspectos humanos das suas instruções apoia-se em Aristóteles e Cícero, e sobretudo em Séneca. Pode ser considerado como o primeiro ilustre senequista. Até no estilo faz lembrar o filósofo cordobês. E uma amostra da sua flexibilidade e adaptação à nova pátria. É uma prova de saber adaptam-se ao povo que estava evangelizando.
No seu livro sobre os costumes, diz falando consigo mesmo: "Que importa que não estejas na terra onde vieste à vida? A tua pátria é o lugar onde encontraste o bem-estar, e a causa do bem-estar não radica no sítio onde se vive, mas dentro do próprio homem."
Mas este grave moralista não só se apoiava na austera prosa de Cícero e de Séneca como veículo para o Evangelho. Gostava também muito da poesia. Adivinha-se nos seus versos uma clama influência virgiliana. Versos que inscrevia nos frontispícios para instrução de todos.
Em verso está também o seu epitáfio na catedral de Braga: "Nascido na Panônia, cheguei, atravessando os largos mares e empurrado por um instinto divino, a esta terra galega, que me acolheu no seu seio. Fui consagrado bispo nesta tua igreja, ó glorioso confessor de Tours. Restaurei a religião e as coisas sagradas, e tendo-me esforçado por seguir as tuas pegadas, eu, servo teu, que tenho o teu nome, mas não os teus méritos, descanso aqui na paz de Cristo". Assim recordava a sua devoção ao Santo de Tours.
São Leandro e São Martinho foram em Espanha os grandes catequizadores dos povos germânicos, que do paganismo tinham passado ao arianismo. E o que Leandro fez com os visigodos, Martinho conseguiu-o com os suevos. Santo Isidoro chama-lhe o propagador da fé na Galiza. Hoje dá-se-lhe o título de Apóstolo dos suevos.
Carregado de méritos, foi receber a coroa no ano 580

