10 Mar 2026
Santa Ória, virgem (+1050)

Santa Ória nasceu em Villavelayos, na província de Burgos, Espanha. Seu pai chamava-se Garcia. Seu mestre e diretor espiritual foi Dom Múnio, que escreveu a sua vida em latim, a qual foi depois traduzida em sonoros versos alexandrinos por Gonçalo de Berceu. E uma vida digna de crédito, pois, segundo o poeta, nem por um rico condado teria consentido em mentir: em tudo quanto digo, digo toda a verdade.

O próprio nome de Ória - Áurea, Dourada - era já todo um presságio de rica qualidade: "Como era preciosa, mais que o ouro apreciada, tinha nome de ouro: Ória era chamada". São deliciosos os versos de Berceu: "Era esta jovem de Deus enamorada, antes queria ser cega do que ver-se casada". Preferia as "Horas" litúrgicas mais do que outros cantares, e ouvir os clérigos mais do que outrosjograis. "Desde que mudou os dentes, logo aos poucos anos, ligava muito pouco aos tecidos mundanos". Sentia inveja de Maria, a irmã de Lázaro. Como ela, passaria a vida junto do altar, aos pés de Cristo.

Um dia foi em romaria até ao mosteiro de São Milhão da Cogola. O prior chamava-se Domingos, e, mais tarde, fundaria a abadia de Silos.Ória ajoelhou-se a seus pés e pediu-lhe conselho para viver separada do mundo e entregue a Deus. "Senhor, Deus o quer, tal é a minha vontade, tomar Ordem e véu, viver em castidade, jazer em pobreza, encerrada num canto, viver do que por mim daria a cristandade".

O prior recomendou-lhe muito que pensasse bem no passo que ia dar. Ória insistiu no seu empenho e Domingos acedeu e deu-lhe o hábito de esposa de Cristo.

Os pedreiros abriram um buraco na parede da igreja de São Milhão de Suso - onde também estiveram enterrados os Sete Infantes de Lara - em frente do altar-mor e do coro onde os monges cantavam, e aí foi encerrada a intrépida donzela Òria.

Eram tempos de heroicidades. Havia pessoas que não se contentavam com encerrar-se num mosteiro. Queriam ainda maior rigor. Encerravam-se em celas incrivelmente pequenas, onde às vezes nem cabiam de pé, para não mais de lá sair. Só abriam um postigo que desse para o altar. Às vezes vinham pessoas pedir-lhes conselho. Mas normalmente a sua solidão era total, só interrompida pela luta contra os demônios e pelo trato com os Anjos. As mulheres foram as mais generosas nesta prisão voluntária. Chamavam-se emparedadas, e ainda resta a recordação do seu heroísmo.

"Houve grande alegria" quando se lhe concedeu, diz a quadra. Òria não se assustou com a estreita clausura. Ainda hoje se contempla, não sem um certo calafrio. Passava os dias e as noites rezando, lendo as Sagradas Escrituras e as vidas dos Santos Aconselhava os que se lhe dirigiam. Fazia as hóstias para a missa, cozia paramentos para a igreja, rezava os salmos com os monges, "e a sua oração penetrava os céus".

"Mas a bendita menina, do Criador amiga" teve grandes tentações do demônio. Domingos soube-o, veio de Silos, aspergiu-a com água benta, disse missa no altar fronteiriço, confessou-a, deu-lhe a comunhão, e a bendita menina já não teve mais visitas do demônio, só de anjos e santos.

Depois de tão austera reclusão, Ória caiu doente. A própria Senhora dos Céus avisou-a da morte. Veio atendê-la Dom Múnio. Fez-se noite. Ória levantou a mão direita e fez o sinal da cruz. E logo "ergueu ambas as mãos, juntou-as por igual, como quem dá graças ao bom rei celestial, fechou os olhos e a boca a reclusa leal, e rendeu a alma a Deus: nunca mais se sentiu mal".

Passou da sua reclusão por Deus para o paraíso com Deus.