O papa Leão XIV simultaneamente reformulou e relativizou a questão do uso do antigo rito da missa com uma declaração astuta e ponderada.
O papa disse, em mensagem a membros da Conferência Episcopal Francesa reunida em Lourdes, França, para sua assembleia plenária periódica, que tem esperança de que o Espírito Santo os inspire a encontrar “soluções concretas que permitam a inclusão generosa daqueles sinceramente apegados ao vetus ordo” — ou seja, aos ritos mais antigos — “em respeito às orientações desejadas pelo Concílio Vaticano II em matéria de liturgia”.
Essa é uma declaração inteligente por vários motivos. Notavelmente, ela cita diretrizes para a reforma estabelecidas pelo Concílio Vaticano II, que criaram espaço para bispos atuarem sem romper com os objetivos declarados pelo papa Francisco de restringir a Missa Tridentina em 2021, enquanto omite, de modo flagrante, a menção ao motu proprio Traditiones custodes, de Francisco, pelo qual ele restringiu a missa antiga e gerou fortes críticas, principalmente dos EUA e da França.
Leão XIV demonstrou seu desejo de ir além do papa Francisco, em outras palavras, buscando uma “paz litúrgica” que seria de grande utilidade para a Igreja hoje. Leão XIV disse também — embora sem apontar culpados — que a Traditiones custodes criou uma cisão que seria muito difícil de sanar.
Diante de uma Igreja na França que pergunta sobre o número cada vez maior de batismos de adultos numa fé geralmente tradicional, o papa Leão XIV disse que os fiéis que se sentem mais próximos do rito antigo não podem ser marginalizados.
A atitude do papa é interessante porque sugere que o conflito pode ser superado. Na França, até mesmo um bispo não-tradicionalista como o arcebispo de Marselha, cardeal Jean-Marc Aveline, atual presidente da Conferência Episcopal Francesa, celebrou a missa no rito antigo justamente para não perder um grupo significativo de fiéis que, no entanto, permanecem dentro da tradição católica.
O tema é amplo. Diante da crescente secularização, observa-se um interesse cada vez maior pela tradição da Igreja, que se reflete também no uso do rito antigo. A volta à Igreja e à fé também é constatado em países como a Suíça, onde o portal online dos bispos (catt.ch) dedicou uma importante pesquisa à volta à fé e ao aumento do número de batismos de adultos.
A conquista da paz litúrgica seria uma grande realização para o papa Leão XIV e para a Igreja.
Desde o Concílio Vaticano II, o tema da liturgia tornou-se acalorado, criando divisões e colocando os cristãos numa situação de antes e depois, ora de um lado, ora de outro.
O papa deseja absorver essas divisões e restaurá-las à unidade. Ele quer fazer isso, como demonstra a carta, partindo de uma perspectiva local, resolvendo cada caso individualmente, sem alterar as disposições do papa Francisco, mas simplesmente não as implementado integralmente.
É uma decisão sábia, que também marca uma virada no pontificado.
Leão XIV se encontra com todos e os ouve. A audiência concedida a Gareth Gore, autor de um livro bastante crítico sobre a Opus Dei, causou alvoroço, mas na verdade fazia parte da “campanha de escuta” de Leão XIV e também da prática do papa de manter contato com jornalistas que conheceu no Peru. Embora Leão XIV esteja atento à opinião pública, ele não é escravo dela. Gore pediu ao papa para estabelecer uma comissão de inquérito sobre a Opus Dei, mas não é certo que ele atenderá ao pedido, especialmente porque a Igreja tem os recursos para compreender as situações dentro das organizações religiosas. Esse é o modo de Leão XIV: ele reúne informações e pondera a questão antes de tomar decisões.
O tema da liturgia é crucial e um primeiro teste foi o diálogo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), quando ela anunciou sua intenção de ordenar bispos sem mandato papal. Mesmo antes disso, Leão XIV já havia enviado uma mensagem à peregrinação Paris-Chartres no verão do ano passado, o que foi significativo, considerando que a peregrinação foi organizada por uma associação de devotos da missa tridentina.
De modo geral, Leão XIV está trabalhando para harmonizar o governo da Igreja.
O papa busca perfis com características muito específicas. A mais recente nomeação da Cúria é a do bispo australiano Anthony Randazzo como prefeito do Dicastério para os Textos Legislativos. Randazzo vem de um lugar suficientemente distante para não se tornar refém dos procedimentos romanos, mas viveu em Roma tempo suficiente para compreender o funcionamento da Cúria. Randazzo foi, entre outras coisas, funcionário da Congregação para a Doutrina da Fé quando o cardeal Joseph Ratzinger era prefeito. Randazzo, assim, traz uma mentalidade tradicional enraizada nos costumes da Cúria do fim da década de 1990, e a experiência pastoral de um bispo do outro lado do mundo e uma certa capacidade de lidar com grandes desafios sem muita ostentação ou visibilidade. Era isso que Leão XIV buscava.
Monsenhor Renzo Pegoraro, chanceler da Pontifícia Academia para a Vida, também foi uma figura de grande destaque, elevada pelo papa Leão XIV. O papa concedeu-lhe o título de arcebispo em 25 de março, restabelecendo efetivamente o princípio de que os chefes dos dicastérios e das academias pontifícias devem ser arcebispos, em colegialidade com o papa.
Todas as atenções estão agora voltadas para o Dicastério para a Comunicação, especialmente porque faria sentido substituir um leigo como o atual prefeito, Paolo Ruffini, por um clérigo. Isso demonstraria como esse pontificado está tomando uma direção clara: não uma ruptura com o pontificado anterior, mas uma clara volta a um pontificado que é “romano” no modo (com todos os chefes de dicastério sendo pelo menos arcebispos, ou seja, em colegialidade com o papa) e institucional em seus métodos.
Leão XIV reformulou a Secretaria de Estado na última segunda-feira (30), nomeando um novo “chefe de gabinete” ou “ministro do interior”, o substituto. O substituto é a segunda pessoa mais importante na secretaria de Estado da Santa Sé e chefe da primeira seção. Desde 2018, o cargo era ocupado pelo arcebispo Edgar Peña Parra, venezuelano e homem de confiança do papa Francisco. Depois de cerca de um ano de pontificado, Leão XIV decidiu nomear um novo substituto e designou o arcebispo Paolo Rudelli para o cargo. O arcebispo Rudelli, de 55 anos, tem uma extensa carreira diplomática e foi núncio na Colômbia até então.
O arcebispo Peña Parra foi nomeado núncio na Itália e em San Marino, numa medida incomum, visto que geralmente o substituto assume um dicastério ou um cargo cardinalício. O atual núncio na Itália, o arcebispo Petar Rajič, foi nomeado prefeito da Casa Pontifícia. O cargo estava vago desde 2023, quando o arcebispo Georg Gänswein encerrou seu mandato como prefeito e não foi substituído. Mas trata-se de um cargo fundamental, pois a prefeitura da Casa Pontifícia administra e organiza as audiências papais, inclusive as com soberanos e chefes de Estado.
O pontificado de Leão XIII surge cada vez mais como um pontificado que não busca uma ruptura, mas sim a oportunidade de conduzir a Igreja para meados do século XXI e além.
Para Leão XIV, é necessária uma mudança geracional. Mas, acima de tudo, as pessoas precisam ser reconduzidas à fé e nutridas nela. A paz litúrgica contribuirá para isso. Ajustes institucionais permitirão que o papa atue como papa.
Foto: ACI Digital





