
São Maiolo foi abade da célebre abadia de Cluny, berço da reforma beneditina, pouco tempo depois de ser fundada e de se converter no foco principal da cristandade, quando a Sede de Roma era disputada pelas várias famílias romanas, os Túsculos e os Crescêncios, pelo que pode falar-se do século negro ou idade de ferro do pontificado.
Um bando de piratas sarracenos, vindos de Espanha. tinham cruzado os Alpes e percorriam o Piamonte. Arrastavam atrás dos seus cavalos muitos cativos, tristes e desesperados. Só Maiolo se mantinha sereno e se atrevia a fazer frente aos bandidos. Quem seria aquele corajoso atrevido?
Ao princípio os bandidos pensaram castigá-lo e pendurá-lo de uma árvore, mas quando souberam que era o abade de Cluny, resolveram conservá-lo, e até o trataram com respeito. Em parte, porque sentiam como que uma inata veneração por aquele que consideravam como um profeta, e, em parte, porque esperavam conseguir com ele um bom resgate, pois conheciam muito bem a riqueza da abadia.
Os muçulmanos tinham indicado a soma de mil libras de prata para o seu resgate e o de outros monges, soma exorbitante, mas que os monges conseguiram juntar, recorrendo aos seus amigos. Por isso, bem depressa Maiolo se encontrou no meio deles.
Maiolo possuía qualidades excepcionais: Sendo ainda estudante, dizia dele um seu admirador: «Era mais branco que um lírio, mais puro que a neve. Sabia agradar a Cristo, e sobressaía pela dignidade da sua vida».
Maiolo faz parte de uma plêiada de grandes e idosos abades clunicenses. Odon, o primeiro, tinha sido um asceta. Maiolo, segundo Odilão, seu sucessor, era um místico, apaixonado pela leitura, tanto dos Santos Padres, como dos filósofos. Leu Virgílio enquanto estudante; depois, foi duro para com ele. «Os poetas divinos bastam-vos, dizia aos seus religiosos: saías e David, Sedúlío e Prudêncio. Não mancheis o vosso espírito com a doce elegância virgiliana». Sim, foi duro com Virgílio, a quem alguns Santos Padres consideram como um poeta pré-cristão. O anônimo escultor do cadeira da catedral de Zamora coloca-o entre os doze profetas menores.
Os contemporâneos contemplavam em Maiolo uma suprema elegância, um rosto simpático, uma suave compostura, uma fisionomia nobre, uma eloquência sublime, um estilo aristocrático, um olhar firme e cheio de doçura.
E um dos homens mais eminentes do século X, um grande restaurador, um insigne organizador. Através dos seus monges, a sua ação estende-se a todas os estratos da vida social. Influi nos govemos de França, Itália e Alemanha. Foi amigo de Hugo Capeto, fundador desta dinastia, conselheiro de Otão, o Grande, diretor espiritual da imperatriz Santa Adelaide. Isto não impedia que tratasse todos os humildes com deferência.
Maiolo, que tinha renunciado ao sólio pontifício, era humilde e simples, e sentia-se como uma criança quando falava com Deus. «Que profundos gemidos, diz um seu discípulo, que doces lágrimas, derramava este homem de Deus, no fervor da oração! Sobre a sua cabeça, branca como a de um cisne, o inverno da vida tinha feito brotar as flores da velhice, mas nenhuma nuvem conseguiu escurecer o brilho penetrante dos seus olhos.
A chegada da morte não o assustou. Quando todos choravam à volta do seu leito, ele esforçava-se por sorrir e dar ânimo a todos, dizendo-lhes: «Coragem, amigos, dêmos graças ao Senhor. Peço-vos a todos que esta morte inevitável seja para vós um motivo de alegria, como o é para mim».

