
São Raimundo, "o São Bernardo espanhol", nasceu provavelmente em terras do Moncayo, em Terrazona, de cuja catedral foi cônego. Foi depois monge cistercience em França, donde passou a Niencebas como abade. O seu antigo bispo de Tarrazona, Dom Miguel, escreveu-lhe: "Faço esta doação a ti, Raimundo, antigamente filho desta nossa igreja, e agora abade de Niencebas".
Depois de assistir em Roma ao Capítulo Geral da Ordem de Cister, fica na abadia de Fitero, à qual unirá para sempre o seu nome. Aí pensava que terminaria a sua longa peregrinação.
Mas não foi assim. Sancho III, o Desejado, tinha ido em socorro de Toledo com toda a nobreza do seu reino: condes,capitães, cavaleiros, bispos, abades Espalhava-se uma notícia alarmante: os cavaleiros templários iam abandonar a fortaleza de Calatrava, que seria ocupada pelos sarracenos. Toledo estava em perigo.
lnteirado da situação, sentiu-se o abade Raimundo como que impelido interiormente, e crendo que o Senhor lhe pedia este serviço, dirigiu-se para Toledo com o monge Diogo Velasquez, para se oferecer ao rei.
O rei tinha oferecido a praça de Calatrava ao valente que tivesse a audácia de aguardar aí os muçulmanos. Ninguém se atrevia. Mas Diogo era um herói e o seu abade um santo. Encomendaram-se ao Senhor e ofereceram-se. Os meios, Deus lhos daria, porque a causa era boa.
Os cortesãos, envergonhados, faziam pouco de tão quixotesca aventura. De certo modo, tinham razão. O abade era perito em cantar salmos e transcrever manuscritos, mas não em manejar armas. Perante esta única oferta, entregou-se-lhes a praça. "E embora parecesse loucura, foi um êxito, como aprouve a Deus".
Raimundo pregou com fervor a cruzada. Reuniu até vinte mil homens nas margens do Ebro, para defender e habitar aquela comarca. Entretanto, Diogo, antigo guerreiro, organizava a resistência, treinava os cruzados, combatia os inimigos e salvava a praça.
Mas era preciso assegurá-la definitivamente, e é então que o abade realiza a grande obra. Com as suas numerosas hostes, meio monges, meio soldados, funda a Ordem Militar de Calatrava, leões em tempo de guerra, cordeiros em tempo de paz".
Raimundo foi proclamado Primeiro Grão Mestre da mesma Ordem. Vendo a boa organização e os seus êxitos, o Papa Alexandre III confirmou-a.
A Ordem de Calatrava continuaria a colher triunfos. E a disciplina mantinha-os sempre em forma. Como afirma Dom Rodrigo Ximénez de la Rada, "prova-os a constante disciplina e o culto do silêncio acompanha-os. Se a vitória os exalta, a prostração frequente humilha-os a vigília dobra-lhes o ânimo. A oração os instrui e o trabalho os exercita".
Depois de cinco anos de abade de Caiatrava, Raimundo retirou-se para a vila de Ciruelos, próximo de Ocaíia. Desde Cirueias, o Santo vigiava os monges cavaleiros e orava por eles nos dias de combate, como quando conquistaram Cuenca e recuperaram Alcaiz. No tempo de paz, infundia-lhes aquele espírito de fé que os faria vencedores nas lutas obscuras do claustro.
Em Ciruelos morreu o santo abade, e, como diz o Rei Sábio na Crônica Geral, "enterraram-no na dita vila e aí faz Deus milagres por ele.
As suas relíquias foram objeto de uma longa peregrinação, como era então frequente por causa das guerras e porque todos queriam tê-las. De Cirueios passaram ao mosteiro de Monte Sião de Toledo. Mais tarde foram veneradas em Fitero. Acabaram a sua peregrinação na catedral de Toledo, encerradas em preciosa urna, sobre a qual se apresenta vitoriosa a Cruz de Calatrava.

