
Nasceu este grande taumaturgo na cidade de Valência, a 23 de Janeiro de 1350. Seu pai, Guilherme Ferrer, era notário, e a casa onde residiam ficava perto do convento dos Padres Dominicanos. Vicente recebeu este nome em virtude de ter nascido no dia de São Vicente Mártir, padroeiro da cidade de Lisboa, em cujo brasão figuram os corvos que o recordam.
Alguém poderia qualificar o seu nascimento como sendo de mau agouro, pois, nessa altura, grassava a chamada "peste negra" que assolava cidades e conventos. Mas ele salvou-se e, aos 16 anos, a 5 de Fevereiro de 1367, vestia o hábito dominicano, emitindo os votos no ano seguinte. Outra cicatriz que feriria quase mortalmente a Igreja seria o tristemente célebre Cisma do Ocidente, em que chegaria a haver duas obediências a dois Papas diferentes, e depois três. São Vicente ver-se-á envolvido no auge da tormenta, mas sempre lutará denodadamente para brilhar a verdade e a justiça.
Os escritores da vida de Vicente enchem-na de milagres, convertendo-o sem dúvida alguma, no maior operador deles. Parece que estes já terão começado no seu próprio nascimento, pois a sua boa mãe, chamada Constância, antes de o dar à luz, recebeu luzes especiais da santidade e fama que o acompanhariam. E assim foi, pois a história confirma isso mesmo, que operou milagres e foi um valioso instrumento nas mãos do Senhor, mas talvez não tantos nem tão atraentes como as suas biografias nos apresentam.
Entregou-se totalmente aos estudos, nos quais sobressaiu pela sua nada comum inteligência e, sobretudo, pela sua arrebatadora eloquência que arrastava a quantos o escutavam. Feitos os estudos, foi nomeado catedrático em vários conventos de Estudos Gerais da sua Ordem: Valência, Barcelona, Lérida, e em diferentes universidades onde a todos chamava a atenção o seu ensino e, sobretudo, a santidade da sua vida.
Os discípulos aumentavam todos os dias e queriam acompanhá-lo para toda a parte, para se enriquecerem com os seus ensinamentos e exemplos.
Mas Vicente será conhecido nos séculos posteriores pela sua pregação arrebatadora. São muitas as aldeias e cidades de Espanha e até do estrangeiro que assinalam uma igreja ou um púlpito de onde o santo dirigiu a sua ardorosa palavra e onde realizará fatos prodigiosos. Parece ter sido este o encargo que recebeu do Senhor, ao curá-lo milagrosamente duma enfermidade, quando se encontrava na cidade dos Papas, em Avinhão: "Levanta-te e vai pregar o meu Evangelho disse-lhe Cristo ao curá-lo milagrosamente -; avisa os homens do perigo em que vivem e anuncia o dia do Juízo. Eu estarei sempre contigo".
A partir desta data, multiplica-se, percorre a maior parte da Europa como Legado do Papa Bento XIII - o Papa Luna - e prega incansavelmente o amor de Jesus Cristo e a vivência dos preceitos do Senhor. Só uma coisa lhe interessa: levar as almas a Cristo. E que esta sociedade desgarrada e materialista em que lhe coube viver, volte para Cristo e viva de acordo com o Evangelho. Falava a todos em valenciano, mas todos o entendiam e Parece que também gozou do dom da bilocação, já que simultaneamente estava em Valência e em Paris ou Londres. Apesar deste trabalho esmagador, ainda lhe restava tempo para escrever belos tratados de vida espiritual, que nos deixou. Em todo o seu apostolado havia um que tinha mais a peito no seu coração: trabalhar pela conversão dos judeus. Dizem que só em Valência batizou mais de dez mil. Seguiam-no multidões de homens e mulheres atrás do Crucifixo e da imagem de Maria que levava sempre em todas as suas correrias apostólicas. Ele humildemente exclama: "Todos acorrem à luz, sem lhes importar a lâmpada". A profecia do Senhor ia cumprir-se. Disse-lhe um dia: "Vai ao extremo da Europa onde morrerás santamente". Foi no dia 5 de Abril de 1419. Foi canonizado em 1455, pelo Papa valenciano Calisto III.

