Quatorze missionários vindos de nove países da África, da Ásia e da América Latina iniciaram, desde 01 de setembro, em Brasília (DF), os três meses de formação da 130ª edição do curso do Centro de Formação Intercultural (CENFI), promovido pelo Centro Cultural Missionário (CCM), órgão filial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Até 28 de novembro, o grupo estudará língua portuguesa, realidade brasileira e caminhada da Igreja no país antes de assumir suas missões, a maior parte delas na Região Norte e no Sudeste.
A turma reúne dois sul-coreanos, um indiano, dois malgaxes, três mexicanos, dois moçambicanos, um nigeriano, uma tanzaniana, uma ugandense e um zimbabuano. Destes, onze missionários são de países africanos e asiáticos, proporção que confirma a mudança de perfil observada pela instituição nas últimas décadas.
“Atualmente, a maioria dos missionários vem dos continentes africano e asiático. Diferente do passado, quando a maior parte vinha da Europa, hoje a Igreja no Brasil conta com uma presença expressiva e crescente de vocações vindas da África e da Ásia”, afirmou o padre Antônio Valdeir Duarte de Queiroz, presbítero da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim (ES), diretor do CCM e Assessor da Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial.
Pe. Antônio Valdeir assumiu a diretoria do CCM desde 30 de março de 2026. (Créditos da Foto: Pe. Rodrigo Rios) (© PE. JOSÉ RODRIGO).
Destinos espalhados por sete estados
Os cursistas já têm destino definido em sete unidades da federação. Cinco seguirão para São Paulo, entre eles o padre sul-coreano Taeil Kim, designado para a Paróquia Pessoal Coreana São Kim Degun, na Arquidiocese de São Paulo, e o padre zimbabuano Pamidzai Mudzudza, dos Oblatos de Maria Imaculada. Dois moçambicanos, Darson José Simão e Ambrósio Zacarias Cipriano, ambos da Congregação da Paixão de Jesus Cristo, irão para o Rio de Janeiro. Outros dois missionários atuarão em Belo Horizonte (MG): o indiano Arockia Pradeep Joseph Anthonysamy, da Companhia de Jesus, e o padre mexicano Luís Fernando Falco Pliego, dos Missionários do Espírito Santo.
Na Região Norte, a irmã sul-coreana Jinhee Han, das Irmãs Beneditinas Olivetanas, foi enviada a Pau D’Arco (PA); a tanzaniana Waida Peter Kisoma, das Missionárias da Consolata, atuará em Roraima; e o mexicano Efrain Ivan Ramirez Guzman, agostiniano recoleto, foi destinado à Prelazia de Lábrea, no interior do Amazonas. Completam o grupo a ugandense Jovalet Ariho, das Irmãs Missionárias do Santo Rosário, que seguirá para Feira de Santana (BA), e o padre nigeriano Emmanuel Olakunle Fadeyi, ligado à Nunciatura Apostólica no Brasil, em Brasília. De Madagascar vieram a irmã Antoinette Rasoavololona, destinada a Taboão da Serra (SP), e Hieronyme Dimitri Mananjaramanohisoa, da Província Espiritana do Brasil, que atuará na capital paulista.
A distribuição acompanha o padrão histórico descrito pelo diretor do CCM. “A maioria atua na região amazônica e no Sudeste, com destaque para o estado de São Paulo. No entanto, a maior parcela dos envios destina-se à Região Norte do Brasil”, explicou o padre Antônio Valdeir.
Três módulos, do idioma à prática pastoral
Criado em 1960, em Anápolis (GO), o CENFI passou por Petrópolis (RJ) e São Paulo antes de se consolidar em Brasília, em 1982. Hoje, o curso é realizado duas vezes por ano e recebe, em média, de 30 a 35 missionários anualmente.
Segundo o diretor, a formação está organizada em três módulos de um mês cada. O primeiro é dedicado integralmente ao português, com turmas divididas conforme avaliação inicial. “Há missionários de países latinos que já possuem facilidade com o idioma e outros que não têm conhecimento prévio, exigindo um processo de imersão e acolhimento passo a passo. Esse aprendizado requer cautela e respeito ao ritmo individual de cada um”, ponderou.
Posteriormente, se aborda as regiões do país, a organização da Igreja em seus 19 regionais da CNBB e temas de convivência comunitária, além de visitas institucionais à própria CNBB e à Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Nessa fase, os cursistas apresentam trabalhos sobre as regiões brasileiras e partilham aspectos culturais de seus países de origem, e os sacerdotes já presidem celebrações e fazem homilias em português nas Missas no próprio CCM.
A última etapa inclui breves experiências missionárias em paróquias da Arquidiocese de Brasília, com visitas a famílias. “Essa vivência prática estimula a conversação, incentivando-os a se arriscar no diálogo e a aprofundar o domínio do português”, destacou o diretor.
Além do idioma, o programa se apoia na vida comunitária, que, segundo o padre Antônio Valdeir, “exige despojamento, humildade, abertura e acolhimento mútuo, especialmente entre pessoas de diferentes culturas, países e costumes”. Para ele, essa convivência funciona como um treinamento para a atuação pastoral na Igreja do Brasil.
Do centro de Madri à selva amazônica
Entre os cursistas, o mexicano Efrain Ivan Ramirez Guzman, sintetiza o salto geográfico e cultural que a turma enfrenta. Formado em Filosofia no México, com noviciado na Espanha, onde emitiu os primeiros votos em 2022, e quatro anos de Teologia em Madri, ele recebeu como primeiro destino a Prelazia de Lábrea, no sul do Amazonas. Chegou ao Brasil em 7 de agosto, por Manaus, antes de seguir para o curso em Brasília.
“Foi uma mudança drástica passar de Madri para a selva, mas me sinto muito acompanhado por Deus e feliz de seguir seu propósito”, relatou. Ele conta que a inquietação inicial da saída da casa de formação foi trabalhada em um mês de exercícios espirituais inacianos: “Compreendi que a missão é de Deus. Ao chegar ao Brasil, me senti em paz e como em casa.”
De Madri para a selva amazônica! O missionário mexicano Efrain Ivan Ramirez Guzman, agostiniano recoleto, concluiu seus estudos de Teologia na Espanha e agora se prepara para atuar na Prelazia de Lábrea, no sul do Amazonas. (Créditos da Foto: Pe. Rodrigo Rios) (© PE. JOSÉ RODRIGO).
Na Prelazia de Lábrea, a comunidade é formada por dois sacerdotes e ele, além do bispo da prelazia, dom Santiago Sánchez Sebastián, também agostiniano recoleto. A paróquia abrange 13 comunidades no município e outras tantas na prelazia. Os frades atuam no Centro Esperança, que atende em dois turnos crianças em situação de vulnerabilidade com reforço escolar e ensino de ofícios, na pastoral juvenil e em um projeto de casas solidárias. O trabalho inclui ainda a chamada “missão do rio”: um mês de navegação pelo rio Purus para visitar comunidades distantes, feita por um frade em companhia das Missionárias Agostinianas.
A participação no CENFI foi indicação de seu provincial, já que a ordem exige a preparação de todos os missionários estrangeiros. “Superar a barreira do idioma é fundamental para compreender as pessoas”, afirmou. “O CENFI nos aproxima da cultura e da realidade da Amazônia e do Brasil, que é muito diferente da do México. Ajuda-me a me libertar de preconceitos para acompanhar e amar as pessoas a partir da realidade delas.”
Sobre os primeiros contatos com os brasileiros, ele avaliou que a adaptação tem sido simples. “O brasileiro é muito próximo e vive sua fé de maneira profunda e simples no dia a dia. Me senti muito acolhido”, disse. Em Lábrea, o trabalho envolve também comunidades indígenas, dentro dos limites previstos pelas normas de proteção, e um contato direto com as populações ribeirinhas durante as missões pelo rio.
“A Igreja no Brasil aprende com a entrega desses missionários”
Para o diretor do CCM, o intercâmbio não é de mão única. “É uma troca na qual a Igreja no Brasil aprende com a doação, a renúncia e a entrega desses missionários que deixam seus países, famílias e amigos para atualizar o mandato de Jesus Cristo: ‘Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho'”, afirmou.
O padre Antônio Valdeir ressaltou que cada turma tem um perfil próprio e que o desta edição ainda está se revelando. “Nesta turma, temos participantes de países como Madagascar, Zimbábue, Índia e Coreia do Sul. Cada grupo possui suas especificidades: alguns são mais reservados e enfrentam maior adaptação inicial, o que é natural no processo de inserção cultural”, observou.
O curso da 130ª edição se encerra em 28 de novembro, com celebração e confraternização de encerramento, quando os missionários seguirão para seus destinos.
Fonte: Vatican News






