A biblioteca diocesana de Pelplin, na região da Pomerânia, no norte da Polônia, guardava, sem saber, um verdadeiro tesouro: dois sermões inéditos de santo Agostinho (354-430).
Em 2024, Paul Alexander Nebauer, um pesquisador independente especializado na história medieval do antigo mosteiro cisterciense de Bad Doberan (Alemanha), entrou em contato com Christian Tornau, professor de filologia clássica da Universidade de Würzburg, para propor uma missão: ele encontrou um códice medieval contendo vários sermões atribuídos a santo Agostinho e precisava de ajuda para identificá-los e traduzi-los.
Tornau, um dos maiores especialistas alemães na obra de santo Agostinho de Hipona e na literatura cristã da Antiguidade tardia, aceitou o desafio.
Para um observador não especializado, o manuscrito pode parecer pouco mais do que um conjunto de páginas envelhecidas de tom amarelado.
Mas, a pesquisa filológica exaustiva realizada por Tornau, junto com Clemens Weidmann, pesquisador do Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (CSEL) de Viena, Áustria, e uma equipe de jovens acadêmicos, revelou uma descoberta de enorme importância.
O manuscrito foi copiado no mosteiro de Doberan no século XII e pode ter sido transcrito de um códice mais antigo de Amelungsborn, mosteiro cisterciense histórico no atual Estado da Baixa Saxônia, Alemanha.
Dos quatro sermões analisados, dois já eram conhecidos pelos especialistas: um reconhecido como autenticamente agostiniano e o outro classificado como pseudoagostiniano. Os outros dois, porém, não puderam ser identificados de imediato.
“Transcrevemos os novos textos e começamos a analisá-los com vistas a uma futura edição. Ficamos fascinados, claro, com a ideia de termos encontrado novos sermões de santo Agostinho, mas logo ficamos céticos porque, em alguns trechos, os sermões não pareciam ter sido escritos por Agostinho”, disse Tornau à ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN.
Dois anos de pesquisa para verificar a autenticidade
Sem se deixarem levar pela empolgação inicial, os pesquisadores quiseram submeter a descoberta aos mais altos padrões acadêmicos antes de validá-la. “Nosso veredicto final de que são autênticas é resultado de um trabalho filológico contínuo de quase dois anos”, destaca o acadêmico alemão.
Parte desse trabalho foi realizado no âmbito de uma escola de verão organizada pelo CSEL em Viena, no ano passado, da qual participaram doutorandos e jovens pesquisadores especializados em literatura cristã primitiva. Depois de uma análise minuciosa dos textos e de sua transmissão manuscrita, a equipe concluiu que não havia objeções sérias à sua atribuição a santo Agostinho.
Segundo o pesquisador, embora vários séculos de transmissão textual separem a época de santo Agostinho, no século V d.C., do manuscrito preservado, o documento oferece uma versão surpreendentemente confiável.
“Há vários séculos entre Agostinho e esse escriba do século XII, então é fácil imaginar que erros tenham ocorrido na transmissão. Mas temos um texto bastante fiel e, com algumas correções importantes, podemos reconstruir em grande parte o que santo Agostinho disse”, diz ele.
Entre os argumentos mais fortes está a datação dos sermões como sendo da Antiguidade tardia, entre os séculos V d.C. e VII d.C., assim como a descrição de práticas litúrgicas que, nas palavras de Tornau, “seriam inimagináveis na Idade Média”.
Além disso, segundo o pesquisador, “o contexto é norte-africano, como fica claro pela oração final do primeiro sermão, que só é atestada na África da Antiguidade tardia”.
Especialistas também verificaram que o autor tinha um profundo conhecimento do pensamento agostiniano, embora sem se limitar a reproduzi-lo mecanicamente.
“O pregador está familiarizado com o pensamento e as obras de santo Agostinho, mas não se limita a copiá-las, o que poderia ser um sinal de inautenticidade”, diz Tornau.
Ele diz também ainda que “os sermões não contêm nada que não pudesse ter sido dito por Agostinho, seja do ponto de vista linguístico, exegético ou teológico”.
Depois de comparar expressões, argumentos e características textuais com todo o conjunto de obras agostinianas preservadas, os pesquisadores chegaram a uma conclusão definitiva.
“Como o pregador é indistinguível de santo Agostinho, consideramos metodologicamente seguro aceitar a autoria de santo Agostinho em vez de inventar um discípulo ou seguidor anônimo”, diz Tornau.
Uma passagem bíblica que apresentou um grande problema teológico
Os dois sermões giram em torno de um dos episódios mais complexos do Antigo Testamento: a consulta do rei Saul com a médium — ou “bruxa” — de En-Dor, narrada no capítulo 28 do Primeiro Livro de Samuel.
Segundo o relato bíblico, abandonado por Deus e desesperado diante da ameaça filisteia, Saul recorre a uma feiticeira para invocar o profeta Samuel. O profeta aparece e anuncia sua morte iminente.
“Essa narrativa representou um problema para a exegese cristã primitiva. Como um necromante pode exercer poder mágico e diabólico sobre Samuel, um santo de Deus? Seria Deus incapaz ou relutante em impedi-lo? Claramente, isso levanta a questão da teodiceia”, diz Tornau.
Antes de santo Agostinho, prevaleciam duas interpretações principais. A primeira sustentava que Samuel de fato apareceu, embora por vontade ou permissão divina e não como resultado de magia. A segunda dizia que a aparição era, na realidade, um espírito maligno que assumiu a aparência do profeta para enganar Saul.
A novidade reside no fato de que agora surgem dois sermões específicos nos quais o bispo de Hipona aborda a questão perante os seus fiéis, sem descartar nenhuma das possibilidades.
“Nos novos sermões, santo Agostinho discute ambas as possibilidades, com suas vantagens e desvantagens, e conclui que ambas são aceitáveis porque nenhuma contradiz a fé cristã”, diz o professor.
Para Tornau, essa postura reflete uma característica distintiva do bispo de Hipona. “Essa abertura a interpretações divergentes das Escrituras é característica de Agostinho em geral”, diz ele.
Segundo o especialista, o doutor da Igreja e uma das mentes mais relevantes e decisivas da filosofia universal adota uma atitude muito mais dialógica do que a de outros autores antigos, que tendiam a argumentar duramente contra opiniões contrárias.
A grande surpresa: uma possível salvação para Saul
O aspecto mais marcante dos novos textos é uma hipótese sem precedentes na tradição agostiniana conhecida até então.
“O elemento mais notável dos novos sermões é a ideia de que Saul, depois de ouvir a profecia de Samuel, poderia ter se arrependido e sido redimido”, diz Tornau.
Segundo o pesquisador, essa interpretação não encontra paralelo nem nas obras conhecidas do bispo de Hipona nem na exegese cristã antiga, em que a figura de Saul é geralmente apresentada de modo decididamente negativo.
Nesses sermões, santo Agostinho parece sugerir que até mesmo uma figura tão controversa quanto o primeiro rei de Israel poderia finalmente ter se aberto à graça divina.
“A ideia pode ser uma invenção específica de Agostinho ou talvez ele tenha tido acesso, direta ou indiretamente, à exegese rabínica judaica, que era muito mais positiva em relação a Saul”, diz o especialista.
Seja como for, Tornau diz que essa interpretação lança luz sobre um aspecto fundamental do pensamento agostiniano.
“Sua independência intelectual e sua disposição em considerar que qualquer pessoa, mesmo aquelas que parecem mais perversas, é capaz de alcançar a salvação pela graça de Deus”, diz ele.
Segundo o especialista, essa intuição mostra com precisão a personalidade do grande Pai da Igreja, que morreu em 430 d.C., cuja obra marcou a teologia, a filosofia, a espiritualidade e a cultura europeias por séculos: “Isso combina honestidade intelectual e humildade episcopal de uma maneira notável e muito agostiniana”.
O próximo passo é produzir uma edição crítica do texto em latim com tradução para o alemão e uma introdução substancial que fale sobre a história da descoberta, descreva o manuscrito, seu conteúdo e datação, e dê contexto para os novos sermões dentro da obra de santo Agostinho e da história da exegese cristã. A publicação poderá ser lançada no início do ano que vem.
A descoberta já gerou várias reações nos círculos acadêmicos e eclesiásticos. “Talvez também porque o papa seja agostiniano, o que aumentou o interesse por Santo Agostinho”, diz Tornau, que espera entregar pessoalmente a futura edição crítica a Leão XIV.
Fonte: ACI Digital






