A Livraria Editora Vaticana (LEV) lançou um novo livro do Papa Leão XIV nesta terça-feira, 21. Intitulada “Desarmada e desarmante. A paz é um dom”, a obra reúne discursos do Pontífice sobre a paz e uma introdução inédita do Santo Padre.
Em entrevista à mídia vaticana, o editor do livro, Alessandro Banfi, afirmou que “esta antologia foi uma honra”. Nela, o Papa recorda que o primeiro dom que Cristo Ressuscitado ofereceu aos seus amigos e ao mundo inteiro foi a paz — uma paz que passa através de um sacrifício unilateral, o do servo sofredor.
Banfi sublinha que a paz é um dom, mas também uma responsabilidade — uma resposta a esse dom — e, ao mesmo tempo, essa posição pacifista não esconde nada do drama violento da vida. Não se trata de uma supressão irrealista do mal ou do ódio, mas sim de uma superação.
Respostas concretas
Do discurso institucional ao corpo diplomático no Dia Mundial da Paz ao diálogo com os jovens em Tor Vergata, os pronunciamentos de Leão XIV têm ênfases diferentes, mas uma preocupação comum: construir diálogos, pontes e intercâmbios, convidando todos a romperem com o paradigma “amigo-inimigo”.
O editor frisa que, para mudar os tempos ao invés de reclamar, é preciso realizar escolhas concretas. “O fim da guerra, o fim do ódio e da violência começa por mim, na minha casa, com os meus colegas, com os meus vizinhos, e não há paz sem justiça”, afirma o jornalista, retomando uma citação feita pelo Pontífice: “a consciência de um único homem pode valer o mundo inteiro”.
Banfi também aponta como o Santo Padre convidou todos a inverterem o ponto de vista de quem narra os conflitos. “Não como se descreve um videogame, diz ele, mas colocando-se na ótica das vítimas, na perspectiva de quem é vítima. Pessoas reais, portanto. A referência a pessoas que são vítimas da guerra, de carne e osso, mulheres e crianças”, descreve o editor.
Confira a seguir, na íntegra, a introdução escrita pelo Papa Leão XIV:
“A paz esteja convosco!” Esta foi a primeira saudação que Jesus ressuscitado dirigiu aos seus apóstolos (Jo 20,19). Este é também o primeiro dom que o Cristo ressuscitado ofereceu aos seus amigos e ao mundo inteiro: a paz. Esse dom, porém, não foi obtido “de graça”: o corpo glorioso do Mestre de Nazaré mostrava as chagas da Paixão. Ele suportou o ódio, a violência e a crucificação do mundo. Jesus Cristo sofreu a injustiça, desarmado e desarmante, e ressuscitou. A mensagem do Evangelho se inseriu e se insere na história. Hoje, como há dois mil anos.
A paz é o grande desejo que agita muitos corações, mas também é frequentemente ameaçada, pisoteada e desprezada. Hoje, 103 Estados estão envolvidos de alguma forma numa guerra na Terra¹. As armas ressoam e matam na Ucrânia, no Oriente Médio, no Sudão, em Mianmar, no Iêmen, no Congo e em muitas outras situações.
Meu amado predecessor, o Papa Francisco, cunhou a expressão “Terceira Guerra Mundial em pedaços” para descrever uma situação de conflito generalizado, sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Retomando meus pronunciamentos sobre este tema, agora reunidos nesta antologia, gostaria de enfatizar vários aspectos que me são caros.
Primeiramente, a paz é uma responsabilidade. Se o nosso primeiro instinto ao nos depararmos com um problema, uma tensão, uma ofensa for o de julgar os outros, acusá-los e até condená-los, será inevitável que primeiro a indiferença e depois o ódio se instalem ao nosso redor. Há uma maneira de enxergar a realidade que destrói em vez de construir. A paz começa por mim. Começa por nós.
Santo Agostinho disse: “Estes são tempos difíceis, tempos de adversidade. Vivam bem e, com uma vida boa, mudem os tempos: mudem os tempos e não terão de que se queixar”². Não podemos pedir a paz aos poderosos do mundo se não começarmos a vivê-la nós mesmos, começando pelas nossas relações diárias: nas nossas famílias, nas nossas casas, nas nossas cidades, nos locais onde trabalhamos. A paz constrói-se com pequenos gestos diários: um sorriso, um insulto perdoado, uma palavra amável.
Além disso, a paz se constrói com a verdade. Mesmo quem faz a guerra afirma agir “em nome” da paz. Ninguém tem a audácia de declarar que quer a guerra pela guerra: até os poderosos da Terra sabem que toda pessoa aspira à justiça e deseja viver em paz. Especialmente após as terríveis consequências dos eventos de Hiroshima e Nagasaki, o recurso à guerra é cada vez mais uma “aventura sem volta”, como enfatizou São João Paulo II³.
Tenho repetidamente recordado o apelo sincero que São Paulo VI dirigiu à Assembleia Geral das Nações Unidas. O que une os homens, observou o meu venerado predecessor, é um pacto selado “com um juramento que deve mudar a história futura do mundo: nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! A paz, a paz deve guiar o destino dos povos e de toda a humanidade!”⁴.
Especialmente na era atômica, a afirmação da verdade deve avançar: não são as armas atômicas que geram a paz, mas sim o desarmamento. Esta verdade, que parecia clara nas últimas décadas, durante as quais assistimos a uma desescalada nuclear, foi obscurecida por uma corrida armamentista que hoje assusta e aterroriza. Como escreveu o cantor, compositor e poeta Bob Dylan, dirigindo-se figurativamente à bomba atômica num dos seus poemas: “Odeio-te porque o homem te fez, e o homem te possui, e o homem te manipula”⁵.
A Igreja humildemente levanta uma questão para todos hoje: a espécie humana deve continuar a habitar a Terra? A combinação do domínio cibernético com o rearmamento global nos leva a considerar seriamente esta questão.
A paz busca testemunhas. Esta antologia deixa isso claro para nós através do poder de tantas figuras. As personalidades aqui discutidas, incluindo o Beato Floribert Bwana Chui, os Servos de Deus Giorgio La Pira e Dorothy Day, são emblemáticas dos muitos homens e mulheres que, em primeira mão, promoveram a paz, vencendo a tentação da corrupção, socorrendo os pobres e promovendo a diplomacia.
Ao lado de homens e mulheres conhecidos, a paz é encarnada por “protagonistas não famosos” que seguiram sua consciência. A história muitas vezes esteve perto da catástrofe nuclear. Crônicas narram a decisão de um único homem, o oficial soviético Stanislav Petrov, que ajudou a evitar uma guerra atômica global: era 26 de setembro de 1983. O radar do bunker perto de Moscou, onde Petrov estava de guarda, detectou o lançamento de vários mísseis balísticos intercontinentais dos Estados Unidos em direção à União Soviética. No entanto, tratava-se de um erro no sistema de rastreamento de satélites soviético. Petrov, desobedecendo ordens, decidiu não relatar o suposto ataque: uma escolha feita com a consciência de quem sabia que aquele simples gesto poderia ter causado milhões de mortes.
Um mundo em que as máquinas, por mais sofisticadas e rápidas que sejam em relação a nós, decidam bombardear pessoas indefesas seria verdadeiramente assustador. A consciência de um único homem pode valer o mundo inteiro.
A paz, enfim, requer esperança. A Igreja continuará pregando a caridade para com todos os homens e mulheres. Se há algo que o mundo busca hoje, acredito que seja uma mensagem de esperança para o futuro. Olhemos para o amanhã com esperança, tendo encontrado a única fonte na mensagem de Jesus. Porque a essência do ensinamento de Cristo é esta: a caridade, o amor, o dar a vida pelos outros vence a morte, o isolamento e a violência: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
A quem corre o risco de cair na tentação do desespero diante das tantas guerras em andamento no mundo, dirijo o convite que já o Papa Pio XI dirigiu a toda a Igreja: “Agradecemos a Deus por nos fazer viver em tempos difíceis. Agora, não é permitido a ninguém ser medíocre”. Que Deus nos guie pelos caminhos da não-violência. Que os que creem e as pessoas de boa vontade nunca deixem de atuar como construtores da paz. Que cada um faça da paz a causa de sua vida.
Do Vaticano, 19 de junho de 2026.
Fonte: Canção Nova







